Sabe-se muito pouco sobre os navios do período dos descobrimentos e expansão portuguesa. Embora os descobrimentos portugueses estejam muito bem estudados por investigadores nacionais e internacionais, que escreveram milhares de livros sobre este período, os veículos da expansão são-nos hoje ainda largamente desconhecidos. Isto deve-se ao facto de terem sido construídos numa fase pré industrial em que o desenho técnico e procedimentos de documentação eram quase inexistentes. Por outro lado nenhum destes navios chegou até ao nosso tempo.
No entanto, estes navios são extremamente interessantes do ponto de vista técnico, não só porque representam o que de mais avançado se fazia em termos de tecnologia na Europa do século XVI e XVII, mas também porque esta vantagem técnica possibilitou os descobrimentos e a expansão marítima portuguesa. Se houve uma altura na história em que Portugal dominou uma tecnologia fundamental para o desenvolvimento e progresso dos povos, foi esta. As consequências são amplamente conhecidas.
Com o trabalho de investigação que aqui se apresenta pretende-se recuperar uma componente do património histórico de Portugal, ou seja, pretende-se fazer uma reconstrução virtual duma Nau da Índia Quinhentista, uma reconstrução em modelo físico com cerca de 3,5m de comprimento e avaliar as características técnicas e de desempenho da Nau como máquina de navegar e de habitar. A Nau da Índia é o tipo de navio mais significativo utilizado pelos portugueses ao longo de vários séculos na chamada Carreira da Índia.
O objectivo deste projecto de investigação consiste na reconstrução de uma nau quinhentista com base em informação arqueológica e documental, e na análise das características técnicas e de desempenho da mesma. A reconstrução será implementada em modelos geométricos de computador tridimensionais e também num modelo de físico com cerca de 3,5m de comprimento para provas de mar. Deste modo pretende-se:
(A) Fazer um levantamento rigoroso e cientificamente justificado das formas do casco, arranjo interior, estrutura e aparelho de uma Nau da Índia. O trabalho é baseado nos resultados da escavação arqueológica dos vestígios da presumível Nossa Senhora dos Mártires afundada em 1606 na foz do rio Tejo, e na reconstrução da forma do casco e aparelho vélico levadas a cabo por Filipe de Castro.
(B) Com base na informação obtida, estudar as características náuticas, de segurança e habitabilidade da Nau da Índia.
(C) Fazer uma avaliação da Rota da Índia.
(D) Recuperar e caracterizar a técnica e os procedimentos de construção naval utilizados nos grandes estaleiros navais portugueses durante os séculos XVI e XVII.
A metodologia a aplicar passa por combinar os dados e resultados várias fontes - nomeadamente a análise de textos coevos, incluindo tratados e regimentos de construção naval, a iconografia relevante e os vestígios arqueológicos suficientemente estudados – usando os métodos de engenharia naval actuais, utilizando programas de computador e ensaios experimentais com modelos à escala.
Para atingir os objectivos descritos atrás organizou-se um plano de trabalhos dividido em seis tarefas complementares. Na tarefa 1 faz-se o levantamento da geometria do casco, do aparelho vélico e do aparelho de manobra. Nas tarefas 2 e 3 faz-se o mesmo tipo de trabalho, mas incidindo nos materiais utilizados, natureza e resistência das diversas ligações estruturais, composição da estrutura e processo de construção do navio, e no seu arranjo geral interior. Na tarefa 4 utilizam-se os resultados das duas tarefas anteriores para investigar as características náuticas do navio, o que inclui uma componente de modelação matemática que será calibrada/validada com resultados experimentais com um modelo à escala.
Com base nos resultados das tarefas anteriores, e utilizando os dados que existem actualmente sobre a climatologia dos oceanos, vão-se avaliar as rotas marítimas para a Índia e comparar os resultados com os registos históricos (tarefa 5). Finalmente está-se usar os resultados anteriores para construir um modelo em ambiente de realidade virtual da nau da Índia e para fazer simulações de uma série de situações da vida do navio. |